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Gente assim…

https://tvi.iol.pt/vocenatv/rever/03-01-2019/voce-na-tv-3-de-janeiro-de-2019/5c2e0d690cf2a84eaefb70d2

A ver a partir da 1.02.23

…assusta-me e mete-me nojo.

“Discurso nacionalista é muito marcado pelo ódio…” e violência. Como é que uma pessoa que não viveu no tempo do Salazar pede para existir outro Salazar? Será que esta pessoa não estudou a mesma Historia que eu? Como é que possível? Para alem de eu ter estado atenta nas aulas de Historia, tive uma mãe que odiou viver na época salazarista. A minha parte preferida da Historia do nosso país é, sem duvida, o 25 de Abril. Por tudo de bom que nos trouxe, pela lufada de ar fresco. Por podermos falar sem medos. Escrever sem medos. Dar a nossa opinião, sem medos. Que o povo não tenha sabido escolher bem os seus lideres, isso ja é outra historia. O povo foi iludido. Estava deslumbrado com uma coisa chamada Liberdade que ha muito não tinha. Compreensível. Aí culpa não foi do povo mas sim dos políticos corruptos que se aproveitaram dessa fragilidade das pessoas.

Uma das coisas que mais me chocou ditas por Manuel Machado foi este se mostrar indignado por ter sido condenado a 2 anos e meio de prisão por ter escrito um texto na internet… Uau! Será que este senhor sabe que no tempo do Salazar, muitas pessoas pessoas foram condenadas, presas e torturadas por escreverem textos e livros só por darem a sua opinião?

A conclusão que eu tiro disto, mais uma vez, é que infelizmente a ignorância tem mais voz que a Educação. 🙁

recriação da imagem da minha autoria


Comecemos pelo princípio: Alcindo Monteiro foi assassinado em Lisboa em 1995, morto ao pontapé por um grupo de nazis reunidos naquela noite de 10 de junho (o “Dia da Raça”, como Cavaco ainda há poucos anos dizia) que saíram pelas ruas para caçar pretos e os matar. Entre eles, encontrava-se um criminoso chamado Mário Machado, membro da Hammerskins, que cumpriu pena de prisão por discriminação racial, sequestro, coação agravada, posse ilegal de arma, ofensa à integridade física qualificada e tentativa de extorsão e que, como prova do seu amor ao nazismo, tem tatuada no corpo uma cruz suástica. Mário Machado esteve preso vários anos pelos seus crimes. Nunca se arrependeu. Mais: continua a defender exatamente as mesmas ideias, cuja concretização é, entre outras coisas, espancamentos como o que vitimou Alcindo Monteiro (e defender o mesmo remédio para gays, ciganos e comunistas). Os assassinos de Alcindo Monteiro, note-se, foram identificados pelos cabelos que tinham nas botas.

Manuel Luís Goucha, que conduz um programa na TVI, apresentou Mário Machado como um entrevistado conhecido por ser “autor de algumas afirmações polémicas”. Fraquinho. Devia ter apresentado o seu convidado como “o espancador de pretos que defende o nazismo”. Era mais rigoroso e, assim como assim, talvez lhe desse mais uns espectadores. Mas Goucha está no bom caminho: ter um nazi que bate em pretos no programa da manhã até é divertido, porque nós vivemos numa democracia e toda a gente tem direito a ter opinião. Só é pena que o Alcindo Monteiro não possa ter dado a sua opinião no mesmo programa. É chato, mas não dava para “fazer o contraponto”: é que o Alcindo foi assassinado ao pontapé, porque era preto. Mas pronto, isso agora pouco interessa e, assim como assim, o que é facto é que o Alcindo já cá não está, não se fala mais nisso, venha o nazi e faz um sucesso. Foi pena que Goucha não lhe tenha perguntado em direto o que sente quando espanca pretos e, já agora, que não tenha perguntado a Machado se acha que os paneleiros devem ser assassinados ao pontapé, assassinados à estalada ou se teriam apenas de ser submetidos a tratamentos forçados para expulsarem de si a enfermidade e o vício de que padecem. Além de, claro, estarem calados e quietos no seu armário. Que pena, querida direção da TVI, ter-se perdido uma oportunidade destas.

No mesmo programa, um suposto jornalista que se interessa muito pelo Machado – mas que é tão jornalista que pelos vistos nem sequer está registado na Comissão da Carteira Profissional – foi dizendo que “algumas partes do Salazar faziam falta” e um repórter andou pela rua a fazer um inquérito aos transeuntes em que se perguntava se estes achavam “que precisamos de um novo Salazar”. Coisa normal. A pergunta aliás podia ter sido específica e detalhada: “defende a reabertura do campo de concentração do Tarrafal, criado pelo Salazar?” ou “acha que precisamos de uma nova lei que proíba os sindicatos livres, designadamente o sindicato dos jornalistas?”. Ou, por exemplo, sei lá, para uma pergunta mais aberta com várias respostas possíveis: “acha que as pessoas que defendem ideologias democráticas e um sistema de múltiplos partidos deveriam ser submetidas à tortura do sono, à tortura da água ou ao isolamento em celas sem janelas?”. É importante conhecer o que pensam os portugueses e, vivendo nós em democracia, devemos respeitar todas as opiniões.

Aos que não compreendem nada disto, antes de apontarem o dedo, pensem bem. Portugal vive um tempo de exceção que exige medidas drásticas: estamos em plena guerra de audiências nos programas da manhã, a Cristina Ferreira foi para o outro canal e não há tempo a perder. Para batalhas desta envergadura, a TVI sabe que todos devem ser mobilizados e todas as armas devem ser empenhadas. Ó gente da minha terra, que se lixe a democracia, o antirracismo, as eleições livres e essas coisas todas do politicamente correto (que já não há pachorra!) como os direitos humanos, o código deontológico ou a ética profissional dos jornalistas, a Constituição mais os palhaços que a defendem. O mundo é para os espertos. Venham os que arrebentam com os pretos, os que espancam os gays e os que querem as mulheres a levar na tromba e a estarem caladinhas, que é assim que se defende a liberdade de expressão, a inovação televisiva e o aprofundamento de uma sociedade aberta.

Finalmente alguém torna a cruz suástica uma coisa banal. Obrigado, Goucha. Obrigado, TVI. Impecável.


E a melhor resposta para este tipo de gente está aqui:

Apesar de tudo Manuel Luis Goucha e Maria Cerqueira Gomes estiveram muito na condução da entrevista.

E vocês, o que acham sobre este assunto?

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